quinta-feira, 2 de abril de 2009

“Burro velho não aprende ofício”


Luís Alves, nome fictício, com 45 anos de idade, casado com dois filhos, canalizador, com o 9º ano de escolaridade, estudante nocturno, gosta muito de ler, ir ao teatro, ao cinema, passear e é apologista de uma educação ao longo da vida.

Dona Joana, nome fictício, 46 anos de idade, casada, com 4 filhos, doméstica, com o segundo ano de escolaridade, gosta muito de conversar, ler revistas e ler o título dos jornais mais populares, e para si “burro velho não aprende ofícios”.

Dona Joana -Boa tarde senhor Luís, onde vai com esses livros?

Luís Alves – Boa tarde D. Joana, vou para a escola. Como em mais novo não tive oportunidade de estudar, decidi agora recomeçar a minha vida de estudante. Pois o saber não ocupa lugar e é importante estarmos preparados para o futuro.

Dona Joana – Não acha que já é muito tarde para voltar a estudar? Na vida há um momento para tudo, a sua juventude já passou e estudar é para os jovens. Tem de cuidar da casa dos seus filhos e da sua mulher. “Burro velho não aprende ofícios!”

Luís Alves – Não se incomode dona Joana, o saber não ocupa lugar, de “livro fechado não sai letrado”.

Estes dois casos são bem reais, são exemplo de duas mentalidades totalmente opostas. Eu concordo com a mentalidade de Luís Alves, mas o que me leva a pensar assim e o que leva a outras pessoas pensarem como a dona Joana?

O homem, desde o momento do seu nascimento ou mesmo antes de nascer inicia o seu processo de socialização. Esta fase, que corresponde à sua socialização primária é muito importante, pois o individuo tem de assimilar, compreender e interpretar e internalizar as normas sociais pertencentes à sua cultura para nela ser aceite e fazer parte.

No entanto, este processo não é percorrido de igual forma por todas as pessoas: o ser humano é influenciado pelo seu património genético herdado dos seus progenitores, o que lhe confere logo de início uma identidade única. É influenciado também, pelo meio envolvente que lhe favorece ou não as suas características genéticas, ao mesmo tempo que, sendo também ele um agente social, influencia o meio.

Assim, em parte se pode justificar os diferentes comportamentos dos actores em questão. Mas, como devemos interpretar estas duas personagens? Há quarenta anos atrás os professores detinham o saber e o aluno era apenas o receptor da instrução. Mas, na actualidade o acesso ao saber é facultado das mais variadas formas, o saber, a necessidade de informação e da educação faz parte do processo de socialização.

O mundo em que vivemos está em constante mudança ao mesmo tempo que exige uma participação mais activa de cada um dos seus agentes. Da mesma maneira que temos de agir para sermos aceites na sociedade durante a primeira fase da nossa vida, temos, durante a socialização secundária, de agir para também melhor nos adaptarmos às suas mudanças e exigências. Os organismos mais bem adaptados ao meio têm maior probabilidade de sobrevivência do que os menos adaptados, deixando um número maior de descendentes(1).

Desde o nascimento que o nosso corpo se vai transformando, crescemos, engordamos, as nossa células envelhecem...e morremos. Durante a nossa vida interagimos com o meio e é dessa interacção que é construído o nosso fenótipo. O que nos diferencia dos animais, é a nossa relação socio-cultural, a inteligência e a capacidade de actuarmos voluntária e conscientemente, dependendo embora da plasticidade individual, sobre as nossas acções. O que não podemos, é esquecer que o nosso genótipo se exprime de acordo com as características do meio, onde decorre o nosso desenvolvimento.

Eu penso assim, como pensará a dona Joana? Será que ela poderá mudar em algum momento a sua maneira de pensar? Assim como o senhor luís Alves foi estudar aos 45 anos, pode acontecer que a dona Joana comece a estudar aos 47 anos. O ser humano está em constante mudança porque interage continuadamente com meio envolvente. Uma das características do ser humano é a sua plasticidade que o acompanha ao longo da vida e que se caracteriza pela sua interacção com as outras pessoas, pela sua probidade de interpretar o mundo e as suas mudanças e pela sua capacidade de organização.

A dona Joana, pode de facto também começar a estudar, o senhor Luís Alves, pode influenciá-la e outras pessoas como ele podem interferir nessa decisão. De facto a dona Joana pode ter uma predisposição genética para estudar, mas é necessário que o meio a estimule para que se desenvolva (pois também a pode inibir). Por outro lado o meio pode ser muito estimulante mas é necessário que exista na dona Joana uma predisposição genética para estudar (2)


BIBLIOGRAFIA:
  1. Jaime. (2008). Teoria de Darwin.Teorias Evolutivas. Acedido em: 02Abril de 2008, em: http://bioteamct4.blogspot.com/2008_03_01_archive.html
  2. Coimbra, Joaquim Luís, (2001): Psicologia, o essencial do 12º ano. Porto: ASA Editores, pp.51.

A psicologia do desenvolvimento com a educação ao longo da vida


Para Piaget, o homem é o ser mais adaptável do mundo (1), no entanto é também o ser mais indefeso da terra, dependendo para a sua sobrevivência da colaboração dos seus congéneres. É ao mesmo tempo “um ser total e primitivamente orientado para a sociedade, é um ser biologicamente social” (2). O seu organismo tem ao nascer um património genético que o permite interagir com o meio, exprimindo-se de acordo com as suas características, onde decorre o seu desenvolvimento, dando-se assim inicio ao seu processo de socialização, que se vai prolongar sucessivamente ao longo da sua vida manifestando-se em dois momentos principais: socialização primaria e socialização secundária.

Durante a socialização primária, a acção dos pais em primeiro lugar, e depois as diversas instituições como as creches, os infantários as escolas, os meios de comunicação social etc., vão desempenhar um papel preponderante no desenvolvimento da criança, cabendo no entanto a ela o papel de assimilar, compreender e interpretar e internalizar as normas sociais pertencentes à sua cultura para nela ser aceite e fazer parte.

No processo histórico da humanidade a educação sempre teve um papel fundamental e que em muito tem contribuído para o seu desenvolvimento. “O acto de educar só pode ser vivenciado pelo homem que se realiza apenas no meio social”. (3). No entanto o mundo de hoje é muito complexo e constantemente agitado exigindo desde o começo até ao fim da vida que o homem se actualize, aprofunde e enriqueça os seus conhecimentos e os adapte a um mundo em constante mudança. “A adaptação ao mundo representa o objetivo final do homem enquanto representa uma de suas espécies. As mudanças no nosso corpo são para adaptarmos e transferimos estas mudanças para as próximas gerações como transferência de conhecimento.”.(4).

Durante a socialização primária, é muito importante que o indivíduo interiorize todos os seus papéis e atitudes e ultrapasse equilibradamente todos os estádios de desenvolvimento, “a forma como cada pessoa resolve cada crise nuclear ao longo dos diferentes estádios, irá influenciar a capacidade para resolver, na vida, os conflitos”. (5) Assim a educação recebida nesta fase, que se dividiu principalmente pelos pais, pela escola, pelos meios de comunicação social, e todo o meio envolvente e que vai continuar durante toda a vida, vai ser fundamental na construção do individuo, de onde vai resultar a formação da sua identidade, “ou seja o sentimento de ser o mesmo ao longo da vida, apesar das transformações por que possa passar (6), conferindo ao indivíduo a aptidão para iniciar a fase de socialização secundária com diferentes contextos e desafios.

O indivíduo casa, tem filhos, tem um emprego e vai ter de responder às novas exigências do seu meio envolvente em constante renovação, o que exige dele uma enorme flexibilidade e uma grande capacidade de adaptação. No entanto não deve parar quando pensa ter adquirido estabilidade. Estabilidade pode significar a conquista de segurança e conforto durante a vida do homem, mas isso não significa que já atingiu o ponto mais alto da sua vida, pois estamos em constante crescimento e desenvolvimento, a evolução é um processo contínuo que nunca para. “A estabilidade só é possível com mudança”. (7)

O homem tem de estar preparado para responder às exigências da sociedade, que só termina no final da sua vida. Um outro aspecto a considerar no desenvolvimento humano, é a sua constante mudança física. A nossa existência tem vários momentos: a concepção, o desenvolvimento intra-uterino, o nascimento, a infância, a adolescência, a maturidade, a velhice, completando-se com a morte. Para isso devemos de estar preparados para os diferentes desafios em qualquer momento da nossa vida e o contrário significa a perda de oportunidades.
Assim sendo, vence aquele que melhor se adaptar ao seu meio envolvente, “Os organismos mais bem adaptados ao meio têm maior oportunidade de sobrevivência do que os menos adaptados, deixando um número maior de descendentes”. (8) A educação é de facto muito importante e deve ser encarada como uma construção contínua da pessoa humana que vai crescendo e desenvolvendo durante o seu processo de socialização.


BIBLIOGRAFIA:
  1. Wikipédia. (2009). Jean Piaget. Epistemologia genética. Acedido em 02 de Abril de 2009, em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Jean_Piaget

  2. Monteiro, Manuela e Santos, Milice Ribeiro.(2002): Psicologia, 2ª parte. Porto: Porto Editora, pp 40.
  3. Marcio Pereira (2008). Desenvolvimento psicológico segundo Vygotsky: papel da educação. Acedido em : 02 de Abril de 2009, em : http://pt.shvoong.com/social-sciences/education/1755200-desenvolvimento-psicol%C3%B3gico-segundo-vygotsky-papel/
  4. Alberto Consolaro. ( 2008). Adaptação ao mundo, avalanche de informações e a serendipidade na Odontologia. Acedido em: 02 de Abril de 2009, em:
    http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1415-54192008000300003
  5. Monteiro, Manuela e Santos, Milice Ribeiro.(2002): Psicologia, 2ª parte. Porto: Porto Editora, pp 35.
  6. Coimbra, Joaquim Luis e Castro, Guilhermina Castro (2001). Psicologia, o essencial do 12º ano. Porto: Edições Asa, pp 89.
  7. Amilton. (2008). Mudança e Estabilidade. Acedido em 02 de Abril de 2008, em : http://www.conhecereagir.com.br/2008/02/mudana-e-estabilidade.html
  8. Jaime. (2008). Teoria de Darwin.Teorias Evolutivas. Acedido em: 02Abril de 2008, em: http://bioteamct4.blogspot.com/2008_03_01_archive.html

Questões sobre o desenvolvimento do ser humano


  1. Em que aspecto os “Estádio de Desenvolvimento” de Piaget, contribuíram para desmistificar o conceito que proliferou até meados do século XVII, em que a criança era vista como um adulto em miniatura?
  2. Quando nascemos, somos seres inacabados que precisamos de aprender tudo o que nos faz falta para sobreviver com autonomia. Em que aspecto esta dependência nos transforma na espécie dominante do planeta?
  3. Quando nascemos, herdamos um conjunto de genes provenientes dos nossos progenitores. De que forma o meio é um factor corresponsável na determinação das características de cada ser humano?

  4. Há aspectos marcantes que diferenciam o Homem dos restantes animais durante o seu desenvolvimento. Quais os principais aspectos, não hereditários, que permitem o progresso do homem em cada geração diferenciando-o claramente das outras espécies?

  5. Ainda que a maturação dependa fundamentalmente de factores genéticos, de que forma a estimulação do meio pode acelerar/retardar o processo de maturação?